Atlantic Convergence 2026: Porque cabos submarinos são essenciais para a internet
Quando uma mensagem, vídeo ou arquivo atravessa o oceano pela internet, é fácil imaginar que os dados estejam viajando por satélites. Na maior parte das comunicações intercontinentais, porém, o caminho está no fundo do mar: são os cabos submarinos de fibra óptica que formam algumas das principais rotas físicas da internet mundial.

Quando uma mensagem, vídeo ou arquivo atravessa o oceano pela internet, é fácil imaginar que os dados estejam viajando por satélites. Na maior parte das comunicações intercontinentais, porém, o caminho está no fundo do mar: são os cabos submarinos de fibra óptica que formam algumas das principais rotas físicas da internet mundial.
Essa infraestrutura está entre os assuntos da Atlantic Convergence 2026, realizada em Lisboa entre 29 de setembro e 1º de outubro. O encontro reúne representantes de diferentes áreas da infraestrutura digital e ajuda a colocar em evidência uma conexão importante para o Brasil: o corredor de dados entre a Europa e a América Latina, no qual Fortaleza ocupa posição estratégica.
Em resumo
- A Atlantic Convergence 2026 acontece de 29 de setembro a 1º de outubro, no Pátio da Galé, em Lisboa.
- A organização informa que mais de 700 líderes de tecnologia e infraestrutura digital, de mais de 50 países, participam da terceira edição.
- Cabos submarinos de fibra óptica transportam aproximadamente 99% do tráfego intercontinental de dados.
- Fortaleza é um importante ponto de chegada de cabos submarinos no Brasil e possui conexão direta com Portugal pelo sistema EllaLink.
- Satélites continuam importantes, principalmente em locais nos quais redes terrestres são difíceis de implantar, mas cumprem um papel diferente na infraestrutura global.
O que é a Atlantic Convergence 2026?
A Atlantic Convergence é uma conferência dedicada à infraestrutura digital que conecta países ao redor do Atlântico. A edição de 2026 ocorreu no Pátio da Galé, em Lisboa, de 29 de setembro a 1º de outubro.
A conferência é apresentada pela DE-CIX, empresa especializada em pontos de troca de tráfego e serviços de interconexão, em parceria com organizações de diferentes segmentos da infraestrutura digital.
Segundo a organização, a terceira edição reúne mais de 700 líderes de tecnologia e infraestrutura digital provenientes de mais de 50 países. Portanto, o número oficial divulgado antes do evento é de mais de 700 participantes deste perfil, e não necessariamente os cerca de mil mencionados em algumas descrições preliminares.
O tema desta edição é a construção de infraestruturas digitais sustentáveis e seguras para um futuro impulsionado pela inteligência artificial. Entre os assuntos da programação estão data centers, computação em nuvem, cabos submarinos, redes terrestres, infraestrutura de satélites, IoT, 6G, inteligência artificial, segurança e sustentabilidade.
Embora esses temas pareçam distantes da experiência de quem simplesmente abre um aplicativo no celular, são justamente essas estruturas que permitem que serviços digitais funcionem em escala internacional.
E um dos melhores exemplos está escondido debaixo do oceano.
Afinal, o que são cabos submarinos de internet?
Cabos submarinos são sistemas de telecomunicações instalados no fundo do mar para conectar diferentes regiões do planeta.
No interior desses sistemas existem fibras ópticas pelas quais as informações são transmitidas usando sinais luminosos. Em vez de transportar eletricidade representando diretamente uma chamada telefônica ou um vídeo, a fibra permite transmitir enormes quantidades de dados em alta velocidade por longas distâncias.
Quando alguém no Brasil acessa um serviço cujo conteúdo precisa ser obtido de uma infraestrutura localizada na Europa, os pacotes de dados podem percorrer redes terrestres até uma estação de chegada de cabo submarino, atravessar o Atlântico pela fibra e depois continuar por outras redes até o destino.
A resposta faz o percurso correspondente de volta.
Naturalmente, a internet é muito mais complexa do que uma única ligação entre dois pontos. Provedores, redes de transporte, data centers, sistemas de distribuição de conteúdo, pontos de troca de tráfego e inúmeras rotas trabalham em conjunto.
Além disso, muito conteúdo popular pode estar armazenado em servidores próximos do usuário. Nesse caso, acessar um site internacional não significa necessariamente que cada dado solicitado precisará atravessar o oceano naquele momento.
Quando a comunicação precisa passar de um continente para outro, entretanto, os cabos submarinos têm uma importância enorme.
Por que a internet mundial não depende principalmente de satélites?
Satélites de comunicação são muito mais visíveis no debate público sobre conectividade. A expansão das constelações em órbita baixa tornou a internet via satélite uma alternativa importante, principalmente em regiões rurais, embarcações e lugares nos quais instalar infraestrutura terrestre é difícil.
Isso pode criar uma impressão equivocada de que satélites também transportam a maior parte da internet entre continentes.
Não é o que acontece.
Cabos submarinos transportam aproximadamente 99% do tráfego intercontinental, segundo dados divulgados pela Meta ao apresentar, em setembro de 2026, seu novo projeto de cabo transoceânico Petal.
Existem razões técnicas e econômicas para isso.
Uma delas é a capacidade. Sistemas modernos de fibra óptica podem transportar volumes extraordinários de dados simultaneamente.
Outra questão é a latência, isto é, o tempo necessário para os dados viajarem entre dois pontos. Rotas diretas de fibra podem oferecer desempenho muito competitivo em conexões intercontinentais.
Satélites de órbita baixa diminuíram significativamente algumas limitações associadas aos antigos sistemas geoestacionários, mas isso não elimina a vantagem dos cabos para transportar enormes volumes de tráfego entre grandes centros digitais.
Na prática, as tecnologias são complementares.
Cabos submarinos funcionam como grandes corredores de capacidade entre continentes. Redes terrestres distribuem os dados dentro dos países e regiões. Redes móveis e Wi-Fi realizam parte importante da conexão final. Satélites conseguem alcançar áreas onde construir essa infraestrutura seria caro, demorado ou tecnicamente complicado.
Como um cabo consegue atravessar o oceano?
Um cabo submarino não é simplesmente uma fibra óptica comum jogada no mar.
O sistema precisa ser projetado para operar por milhares de quilômetros e suportar as condições do ambiente marítimo.
Os cabos possuem camadas de proteção ao redor das fibras. A configuração pode variar conforme a região em que serão instalados. Áreas próximas da costa, nas quais existem atividades humanas e maior possibilidade de danos, podem exigir proteção adicional.
Durante a instalação, navios especializados percorrem rotas previamente planejadas depositando o cabo no leito marinho.
Também existem equipamentos responsáveis por manter a transmissão óptica ao longo das enormes distâncias envolvidas.
Nas extremidades ficam as estações de chegada. É a partir delas que a infraestrutura submarina se conecta às redes terrestres.
É justamente nesse ponto que a geografia começa a fazer diferença.
Uma cidade que concentra a chegada de vários sistemas pode se transformar em um importante ponto de conectividade, atraindo infraestrutura de telecomunicações, interconexão e data centers.
É o que ajuda a explicar a importância de Fortaleza para a internet brasileira.
Por que Fortaleza é um ponto estratégico?
A posição geográfica de Fortaleza torna a capital cearense especialmente relevante para conexões internacionais.
Localizada no Nordeste e projetada para o Atlântico, a cidade está em uma posição favorável para rotas que conectam o Brasil a outros continentes.
Essa vantagem contribuiu para a concentração de estações de chegada de cabos submarinos na região.
Em 2021, quando uma estação da EllaLink foi inaugurada na Praia do Futuro, o Governo do Ceará informava que Fortaleza contava com 16 cabos submarinos de fibra óptica em operação. Naquele momento, o EllaLink tornou-se o 16º cabo ancorado no Ceará e o primeiro sistema de alta capacidade a realizar uma conexão direta entre o Brasil, a partir de Fortaleza, e a Europa, chegando a Portugal.
É importante observar a data dessa informação: ela descreve a infraestrutura existente em 2021 e não deve ser interpretada automaticamente como uma contagem atualizada para 2026.
O ponto central continua válido: Fortaleza se consolidou como um dos principais locais de chegada de infraestrutura submarina no país.
Isso coloca a cidade dentro de uma rede internacional muito maior do que aquela percebida pelo usuário ao contratar sua conexão doméstica.
EllaLink criou uma rota direta entre Brasil e Europa
Um dos sistemas que melhor demonstra a relação entre Fortaleza e Portugal é o EllaLink.
O cabo entrou em operação em 2021 e criou uma rota de dados de alta capacidade entre a América Latina e a Europa. A Comissão Europeia informa que o sistema possui pontos de chegada que incluem Fortaleza e Sines, em Portugal, além de conexões com outros locais da Europa, América do Sul, Madeira e Cabo Verde.
com capacidade inicial de 100 Tbps e uma rota de baixa latência entre Brasil e Portugal. Segundo a mesma fonte, o sistema registra menos de 60 milissegundos de atraso de ida e volta entre os dois países.
Antes de uma rota direta desse tipo, determinados fluxos de dados entre América do Sul e Europa podiam depender de caminhos indiretos, inclusive por redes que passavam pela América do Norte.
Criar uma ligação transatlântica direta não significa que todo acesso brasileiro a serviços europeus automaticamente utiliza esse cabo. A rota efetivamente percorrida pelos dados depende de decisões de rede, acordos entre operadores, disponibilidade, destino e outros fatores.
Ainda assim, novas rotas aumentam as possibilidades de interconexão e podem contribuir para capacidade, desempenho e diversidade da infraestrutura.
É nesse contexto que Fortaleza e Portugal aparecem no mesmo mapa da internet mundial.
O que Lisboa tem a ver com essa infraestrutura?
A escolha de Lisboa para a Atlantic Convergence não é apenas uma questão de localização conveniente para um evento internacional.
Portugal ocupa uma posição geográfica interessante na borda atlântica da Europa e está próximo das rotas entre Europa, África e as Américas.
A própria organização da conferência descreve Lisboa como um ponto estratégico para a interconexão digital no Atlântico, destacando sua proximidade com Europa, África, América do Norte e América do Sul e a presença de importantes sistemas submarinos.
Existe, porém, uma distinção geográfica importante quando falamos especificamente do EllaLink.
A ligação transatlântica principal do sistema chega a Sines, em Portugal, e Fortaleza, no Brasil. A plataforma também oferece conectividade para Lisboa e outras cidades. A documentação da Comissão Europeia lista Sines, Lisboa, Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro, entre outros pontos atendidos pela rede.
Portanto, dizer simplesmente que existe “um cabo de Fortaleza a Lisboa” pode esconder a configuração real da infraestrutura.
O mais preciso é compreender Portugal e Fortaleza como pontos estratégicos do corredor digital que conecta Europa e América Latina, com Sines exercendo papel específico como ponto de chegada do sistema EllaLink em território português.
O que acontece se um cabo submarino for rompido?
Apesar de extremamente importantes, cabos submarinos não são indestrutíveis.
Falhas podem ocorrer por diferentes motivos. Atividades marítimas, equipamentos de pesca, âncoras, fenômenos naturais e outros incidentes podem danificar sistemas submarinos.
Isso não significa necessariamente que uma região inteira ficará sem internet quando um cabo apresentar problemas.
A infraestrutura global é construída com diferentes níveis de redundância. Operadores podem possuir acesso a múltiplas rotas, permitindo redirecionar tráfego quando existe capacidade disponível.
Imagine uma cidade ligada a outra por diversas rodovias. Se uma delas for bloqueada, veículos podem utilizar caminhos alternativos. Entretanto, essas alternativas podem ficar congestionadas ou aumentar o tempo da viagem.
Com redes de telecomunicações, existe uma lógica semelhante.
Quanto maior a diversidade de rotas disponíveis, maior pode ser a capacidade de uma rede continuar funcionando diante de falhas.
Por isso, discutir novos cabos não é apenas discutir velocidade. Também envolve resiliência e diversidade de caminhos.
Por que a inteligência artificial aumenta a discussão sobre infraestrutura?
A Atlantic Convergence 2026 coloca a inteligência artificial no centro da discussão sobre infraestrutura digital.
Isso acontece porque serviços digitais não existem apenas como software.
Modelos de IA são treinados e executados em data centers. Esses centros precisam de energia, equipamentos de computação e conexões de alta capacidade. Usuários e empresas também precisam acessar esses recursos a partir de diferentes lugares.
Quanto maior o volume de processamento distribuído e transferência de informações, maior a importância da infraestrutura que conecta data centers, provedores de nuvem, redes e usuários.
A organização da conferência inclui entre seus principais temas cloud, data centers, infraestrutura submarina, terrestre e de satélite, segurança, energia e tecnologias emergentes.
Essa abordagem ajuda a corrigir outra ideia comum: a de que a expansão da IA depende apenas de chips mais rápidos.
Sem energia e conectividade suficientes, capacidade computacional isolada não resolve todo o problema.
O crescimento de serviços de IA, nuvem, streaming e outras aplicações digitais aumenta a relevância das grandes redes de transporte que mantêm diferentes regiões conectadas.
O que muda para você?
Quem utiliza uma conexão de fibra em casa provavelmente nunca verá um cabo transatlântico. Mesmo assim, existe uma relação entre essas infraestruturas.
A fibra que chega à residência é apenas uma parte do caminho.
Ao acessar um serviço, os dados podem passar pela rede do provedor, por pontos de interconexão e por diferentes redes de transporte. Dependendo de onde está o conteúdo procurado, a comunicação pode permanecer no Brasil ou seguir para outros países.
Quando o destino está em outro continente, cabos submarinos podem entrar nesse percurso.
Isso não significa que morar próximo de uma estação de chegada automaticamente garante uma internet doméstica mais rápida. A qualidade percebida pelo consumidor depende de diversos elementos: plano contratado, Wi-Fi, equipamentos, rede do provedor, interconexões, congestionamento, localização do servidor e rota utilizada.
A presença de grandes sistemas internacionais, entretanto, fortalece a infraestrutura disponível para conectar o país ao restante do mundo.
É por isso que discussões realizadas em eventos como a Atlantic Convergence podem parecer altamente técnicas, mas estão relacionadas a algo bastante cotidiano: a capacidade de abrir um aplicativo, participar de uma videoconferência ou acessar um serviço hospedado do outro lado do Atlântico.
Cabos e satélites vão competir pelo futuro da internet?
É mais correto falar em complementaridade.
Satélites são especialmente importantes quando o desafio é levar conectividade a lugares remotos ou móveis. Cabos oferecem capacidade enorme para transportar tráfego entre grandes centros de conectividade.
Redes terrestres, cabos submarinos, data centers, pontos de troca de tráfego e satélites podem funcionar como partes diferentes de uma mesma infraestrutura.
A própria Atlantic Convergence inclui infraestrutura submarina, terrestre e de satélites em sua programação, em vez de tratar uma tecnologia como substituta universal das demais.
À medida que cresce a demanda por computação em nuvem, vídeo, inteligência artificial e serviços digitais, o desafio passa a ser combinar capacidade com segurança, eficiência, redundância e sustentabilidade.
Perguntas frequentes sobre cabos submarinos
Cabos submarinos realmente transportam a internet?
Sim. Cabos de fibra óptica instalados sob os oceanos formam a principal infraestrutura utilizada para transportar dados entre continentes. Estimativas atuais indicam que aproximadamente 99% do tráfego intercontinental passa por esses sistemas.
A internet internacional não funciona principalmente por satélite?
Não. Satélites têm grande importância para determinadas aplicações e regiões, mas a maior parte do tráfego intercontinental utiliza cabos submarinos.
Fortaleza está conectada diretamente à Europa?
Sim. O sistema EllaLink criou uma rota transatlântica de alta capacidade entre Fortaleza e Sines, em Portugal, entrando em operação em 2021. A plataforma conecta essa infraestrutura a outros pontos europeus e sul-americanos.
Se um cabo quebrar, a internet para?
Não necessariamente. Redes podem utilizar rotas alternativas quando existe redundância e capacidade disponível. O impacto depende do cabo afetado, das alternativas existentes e das redes envolvidas.
Por que existem tantos cabos se um único sistema tem enorme capacidade?
Porque a capacidade não é a única preocupação. Diferentes sistemas oferecem novas rotas, conectam mercados distintos e aumentam a diversidade da infraestrutura. Essa redundância também é importante diante de falhas.
A internet global também é uma infraestrutura física
A Atlantic Convergence 2026 acontece em um momento no qual inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais aumentam a demanda por conectividade de alta capacidade. A terceira edição ocorreu em Lisboa de 29 de setembro a 1º de outubro e coloca justamente a infraestrutura necessária para sustentar esse crescimento no centro das discussões.
Para o Brasil, o assunto ajuda a revelar a importância estratégica de Fortaleza.
A capital cearense é um ponto relevante de chegada de cabos submarinos, enquanto sistemas como o EllaLink criaram uma ligação direta de alta capacidade entre o Brasil e Portugal.
Mais do que uma curiosidade tecnológica, os cabos mostram que a chamada “nuvem” depende de uma infraestrutura extremamente concreta.
São fibras, estações de chegada, data centers, redes terrestres e equipamentos espalhados pelo planeta que permitem que dados atravessem continentes em frações de segundo.
Os satélites ampliam as possibilidades dessa rede e são fundamentais em diversos cenários. Mas, quando bilhões de pessoas e empresas precisam movimentar enormes volumes de informação entre continentes, são os discretos cabos instalados no fundo dos oceanos que continuam realizando a maior parte desse trabalho.
Fontes consultadas: DE-CIX e Atlantic Convergence; Comissão Europeia; Governo do Ceará. A estrutura e o enfoque editorial também seguem a pauta fornecida para 29 de setembro de 2026. PAUTA 290926 – IN TREE




